Como a imaginação radical te levará do caos à inovação

Rubem Valentim • Emblema 841984

A tecnologia criativa para transformar a turbulência em potência.

Este artigo é um exercício de confluência. De um lado, a prática de corpo, território e ciências ancestrais de Caroline Amanda; de outro, a tradução sistêmica e organizacional de Paulo Martinez. Em conjunto, exploramos como a imaginação radical deixa de ser um conceito abstrato para se tornar a tecnologia definitiva de inovação em tempos de caos.


Imaginar radicalmente é um gesto de cuidado

Por Caroline Amanda

Recentemente visitei a exposição “Imaginação Radical”, no Museu das Favelas, inspirada no pensamento de Frantz Fanon¹. A travessia por aquele espaço não foi apenas estética — foi um reencontro com uma pergunta que atravessa minha trajetória pessoal, profissional e comunitária: que mundos ainda não existem porque nos ensinaram a não imaginá-los?

Em ‘Pele negra, máscaras brancas’ ², Fanon escreve: ❝Oh, meu corpo, faça sempre de mim um homem que questiona! ❞. A primeira vez que li essa frase eu tinha 19 anos e ecoou em mim como um chamado profundo. Questionar, aqui, não é negar por negar, mas abrir passagem para a vida quando as estruturas parecem endurecidas demais para acolher o novo. A imaginação radical, então, deixa de ser um exercício abstrato e passa a ser tecnologia de emancipação por meio da reimaginação coletiva.

Essa vivência dialoga com duas jornadas de inovação que facilitei para as lideranças do Grupo Ginga. Ali, sob a curadoria estratégica de Paulo e sua sócia Laís Araújo, minha missão foi produzir uma ambiência de integração capaz de sustentar presença e escuta profunda. Experimentamos a imaginação radical para além da teoria, e sim como tecnologia social aplicada: um movimento fenomenológico de leitura de ciclos que permitiu ao grupo balançar sem perder o centro e transformar as tensões do presente em caminhos de futuro.

Ao olhar para essas experiências, percebo que a realidade das corporações não está separada das urgências sociais e simbólicas que atravessam o nosso tempo. Quando uma organização se permite escutar seus próprios interditos, reconhecer seus territórios internos e acolher linguagens que não cabem no manual corporativo, algo se transforma. A empresa deixa de ser apenas estrutura produtiva e passa a ser campo vivo de relações.

É nesse ponto que meu pensamento encontra as contribuições que Paulo compartilhará a seguir. Ele traduziu em linguagem organizacional aquilo que, para mim, nasce como prática de corpo, território e comunidade. Sua narrativa observa os efeitos, os movimentos de liderança e a inovação que emerge do caos, enquanto a minha escrita revela o solo onde essa experiência germina. Não há disputa entre as vozes; há confluência. Por isso, sua palavra permanece íntegra. Ela testemunha o impacto da vivência a partir de outro lugar de escuta.

Foi nesse espírito que compartilhei com as lideranças um percurso espiralado: Reconhecer, Nomear, Equilibrar e Imaginar. Um movimento que não busca eliminar a turbulência, mas escutá-la como linguagem de transformação. Assim como nas culturas afro-diaspóricas, onde a arte nasceu como estratégia de sobrevivência, as organizações também podem aprender a transformar urgência em criatividade viva.

A exposição no Museu das Favelas me fez perceber que a imaginação radical não pertence apenas aos campos acadêmicos ou artísticos. Ela já pulsa nas práticas cotidianas de quem reinventa a vida com os recursos disponíveis. Há uma inteligência coletiva que emerge das bordas e desafia as narrativas hegemônicas sobre inovação. Quando essa inteligência encontra espaços institucionais dispostos a escutar, algo novo começa a nascer.

Gambiarra como tecnologia radical do cotidiano

Em 2025, o conceito de gambiarra³ ganhou protagonismo no Cannes Lions International Festival of Creativity, sendo apresentado como uma forma legítima de design thinking brasileiro. Criativos destacaram que aquilo que durante décadas foi visto como improviso ou solução provisória revela, na verdade, uma metodologia sofisticada baseada em adaptação, inteligência coletiva e reinvenção constante.

A gambiarra foi apresentada como tecnologia social nascida da necessidade e da criatividade periférica, um modo de inovar que transforma limitações em linguagem criativa. Ao ser reconhecida internacionalmente, ela desloca o olhar da inovação tradicional e evidencia que muitos dos processos celebrados globalmente já acontecem há décadas nas bordas do sistema.

Pessoalmente, acredito que a gambiarra não é apenas um recurso técnico, mas uma epistemologia viva. Assim como o Jazz, o Jongo ou a Capoeira, ela emerge como resposta sensível às restrições impostas pela história. É a imaginação radical operando no cotidiano, traduzindo urgência em invenção.

Assinar este texto é também assumir um compromisso: seguir cultivando uma imaginação que não separa corpo e pensamento, espiritualidade e política, ancestralidade e futuro. Porque, no fim, imaginar radicalmente é um gesto de cuidado com aquilo que ainda não tem nome, mas insiste em viver através de nós.

Assim, se imaginar radicalmente é um gesto de cuidado, também é um gesto de partilha. A partir daqui, convido você a atravessar a experiência pela escuta/experiência de Paulo Martinez, que traduz em linguagem organizacional os movimentos que vivenciamos juntos e amplia o campo de reflexão sobre como o caos pode se tornar inovação viva.


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A travessia do caos à inovação

Por Paulo Eduardo Fontenete Martinez

Muita gente trava diante do caos. Nas organizações, ele costuma ser visto como erro. Na natureza, funciona como o nascimento de algo novo. Participei de um encontro com a Caroline Amanda — a Carol que colaborou no Innovation Roots, com visões valiosíssimas sobre Ciências Ancestrais nas organizações. Desta vez, mergulhamos na temática da Imaginação Radical.

Essa imaginação supera a ideia de fuga. Funciona como ferramenta de intervenção direta na realidade. Como a Carol pontuou: ❝a vida sempre vai buscar a vida❞. Ela explora conceitos da obra ‘O Espírito da Intimidade ’, de Sobonfu Somé ⁴ , conectando-os às suas vivências e pesquisas.

A arte da sobrevivência

A inovação descarta ambientes controlados. Pelo contrário, os movimentos criativos mais relevantes da história nasceram da urgência e da turbulência.

Carol cita movimentos como o Jazz e o Blues, o Jongo, a Capoeira e o Samba, que surgiram em contextos de extrema opressão. Nesses cenários, a arte deixou de ser entretenimento para tornar-se uma estratégia criativa de sobrevivência. Era a vida encontrando caminhos no meio do proibido.

Imaginação Radical é, portanto, a tecnologia necessária para converter a turbulência em inovação real.

Fenomenologia das relações

Carol afirma, com base na interseção entre a psicanálise e a fenomenologia, que para inovar precisamos enxergar as relações em três dimensões: Dita, Não Dita e Interdita.

  • Dita: representa a fala explícita — as metas, os planos e os discursos. Essa camada funciona como a parte visível de uma estrutura organizacional muito maior. A força dessas palavras depende diretamente da confiança e dos valores que o grupo compartilha. Na ausência de conexão real e propósito comum, o discurso vira ruído burocrático e perde a capacidade de gerar movimento.

  • Não Dita: abriga a arquitetura invisível do encontro. É a linguagem da presença, o tom de voz e a energia que preenchem o espaço entre as pessoas. Sobonfu Somé descreve essa dimensão como o “Espírito das Relações“. Ignorar o que o corpo e o ambiente comunicam significa perder sinais vitais do sistema. Nesses silêncios habitam insights criativos que raramente se manifestam no verbo.

  • Interdita: reúne as amarras sistêmicas e os dogmas que moldam o comportamento coletivo. São as regras não escritas e as hierarquias rígidas que definem o que é considerado “impossível”. Esse território sobrevive pelo medo da mudança e pela proteção de costumes obsoletos. Inovar exige coragem para nomear essas barreiras e avançar além das fronteiras que sufocam a vida do sistema.

A Imaginação Radical exige sair da ilusória zona de conforto para acolher essas dimensões, resgatando a sensibilidade necessária para nutrir o que Sobonfu Somé define como a “Alma da Comunidade“. Sem uma Alma comunitária forte, as relações individuais não têm onde se ancorar e acabam se perdendo.

Ciclo de transformações

Inovar requer um movimento cíclico que se retroalimenta. Transformar a inovação em prática regenerativa exige metodologias capazes de navegar na complexidade real. Caroline Amanda propõe um percurso espiralado que integra a desordem inicial e abre novos caminhos de futuros em quatro movimentos fundamentais:

  1. Reconhecer: envolve o desenvolvimento de uma percepção aguçada do todo. Trata-se de identificar a frequência do que é dito, as tensões ocultas no silêncio e as barreiras que o interdito impõe ao grupo. Esse movimento mapeia o território organizacional e revela os pontos em que a vitalidade está estagnada.

  2. Nomear: configura o ato de tornar visível o que antes era apenas sentido. Dar nome a uma dinâmica travada ou a um dogma invisível retira o poder do oculto sobre o coletivo. Esse gesto de consciência permite que o grupo enfrente os desafios com objetividade, transformando bloqueios abstratos em pontos de intervenção.

  3. Equilibrar: distancia-se da harmonia superficial que frequentemente mascara conflitos para manter as aparências. O equilíbrio real integra forças divergentes e calibra as tensões do sistema, sem tentar combatê-las ou ignorá-las. Esse estado de sintonização dinâmica prepara o terreno para que a criatividade fluua livremente, sem as travas da repressão que sufocam a originalidade.

  4. Imaginar: representa o salto criativo após a estabilização do sistema. Com as amarras devidamente mapeadas, vislumbramos futuros que as convenções atuais consideram impossíveis. É o resgate da audácia necessária para propor soluções inéditas para problemas complexos, transmutando a turbulência em inovação real.

Tudo o que existe já foi imaginado um dia

Aquilo que nos envolve, em todas as camadas da vida, foi um dia fruto de imaginações anteriores. Frente a um modelo que hoje desgasta a existência, a Imaginação Radical se apresenta como impulso essencial da inovação.

Imaginar radicalmente nos convoca a um aprendizado contínuo e desloca o foco puramente técnico da inovação, potencializando a vitalidade das relações. Ao bebermos das ideias de Caroline Amanda e da sabedoria de Sobonfu Somé, percebe-se que inovar deixa de ser um ato utilitarista para assumir sua máxima expressão, onde o valor gerado pelo conjunto vivo das relações supera em grande medida o valor da soma das partes isoladas.


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Caroline Amanda é cientista social, psicanalista e mestra em Filosofia pela UFRJ. Desenvolve metodologias de facilitação fenomenológica que integram ancestralidade, inovação e regeneração sistêmica em organizações e comunidades. É fundadora do Instituto Yoni das Pretas..

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Paulo Eduardo Fontenete Martinez é empreendedor, comunicador, tecnólogo e designer de sistemas regenerativos com 25 anos de carreira. É co-fundador e sócio do Grupo Ginga (ginga.group), co-fundador do Distrito (distrito.me), além de co-iniciador e publisher das comunidades intencionais GIRA (gira.xyz) e Innovation Roots (innovation-roots.com). Paulo Eduardo também é professor, palestrante, mentor e conselheiro.

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