Desafios da geopolítica hardpower para lideranças e negócios
Ambiente desafiador e imprevisível exige uma postura de liderança radicalmente nova.
Por Paulo Martinez
É costume iniciarmos um novo ano desejando paz, saúde e prosperidade. No entanto, a realidade bate à porta com uma brutalidade que não permite alienação. O cenário geopolítico, mais do que otimismo, exige uma capacidade analítica sistêmica e complexa, além de uma nova postura da liderança organizacional.
A intervenção dos Estados Unidos na Venezuela é, na verdade, a peça mais recente de um mosaico perturbador que inclui a persistente guerra entre Rússia e Ucrânia, a tragédia humanitária em Gaza no contexto do conflito Israel–Palestina, as tensões cada vez mais agudas no Estreito de Taiwan e a crescente disputa em torno da Groenlândia, que expõe fraturas entre EUA, Dinamarca e OTAN.
Este conjunto de eventos acaba por enfraquecer o multilateralismo em favor de uma Realpolitik¹ de esferas de influência. Como nos séculos 19 e 20, quando o equilíbrio de poder era ditado pela capacidade das grandes potências de projetar força sobre territórios considerados estratégicos, vemos hoje um movimento similar de demarcação geopolítica. Observa-se uma reorientação prática na qual interesses territoriais e controle de recursos se sobrepõem às normas diplomáticas estabelecidas nas últimas décadas. O paradoxo contemporâneo é que essa tradicional disputa por hegemonia ressurge em cenário hiperconectado, equipado com tecnologias bélicas de alcance global.
Dados recentes apontam para o maior pico de conflitos desde o fim da Segunda Guerra Mundial, com mais de 60 conflitos armados simultâneos ao redor do globo². Tal panorama materializa a manifestação aguda do que definimos como policrise³: um emaranhado de emergências geopolíticas, climáticas, sociais e econômicas que se retroalimentam.
A instabilidade é exacerbada pela tendência de uma “ordem triangular”, na qual grandes potências delimitam rigidamente suas macroesferas de influência — os EUA nas Américas (como ilustra a recente invocação da Doutrina Monroe⁴), a Rússia na Eurásia e a China na Ásia. Nesse desenho, a Europa oscila entre a tutela norte‑americana e a pressão russa, enquanto ensaia uma ainda incipiente busca de autonomia estratégica. África e Oriente Médio seguem tratados como regiões estratégicas de disputa, onde os três grandes players projetam poder e competem por recursos de formas distintas.
Sob a ótica das organizações, este movimento torna o ambiente de negócios ainda mais desafiador e imprevisível, exigindo uma postura de liderança radicalmente nova.
A economia da guerra e o déficit de futuro
A análise dos dados globais evidencia uma alocação de recursos desproporcional diante dos desafios contemporâneos. Os gastos militares globais saltaram para US$ 2,7 trilhões em 2024 — valor equivalente ao PIB de todo o continente africano e 13 vezes superior a toda a ajuda internacional ao desenvolvimento. Caso mantida a atual trajetória de militarização, impulsionada por metas da OTAN e reações em cadeia no Oriente, as projeções indicam que atingiremos a cifra de US$ 6,6 trilhões até 2035⁵.
Estamos diante de um problema massivo na alocação de capital. Segundo o relatório "O Verdadeiro Custo da Paz"⁵ da ONU, enfrentamos um custo de oportunidade trágico, com estimativas de que:
Apenas 4% dos gastos militares globais bastariam para erradicar a fome no mundo.
Com 10%, garantiríamos vacinação infantil universal.
Com 15%, cobriríamos todos os custos de adaptação climática nos países em desenvolvimento⁵.
Ao optar pela militarização, as grandes potências não estão apenas "gastando dinheiro"; estão ativamente desfinanciando o futuro da humanidade e a regeneração da biosfera.
O paradoxo energético e os custos ocultos da corrida armamentista
Os movimentos bélicos pelo controle de combustíveis fósseis evidenciam a persistência do paradigma da Exploração, criando um descompasso estratégico que contradiz a lógica da sobrevivência climática.
Além disso, é imperativo considerar a pegada ecológica da indústria de defesa. Se fosse uma nação, o setor militar estaria entre os 50 maiores emissores mundiais (5% a 6% das emissões globais⁶), sem contar a "dívida de carbono" da reconstrução. Estudos indicam que uma parcela significativa das emissões de uma guerra (entre 30% e 40%) advém da reconstrução da infraestrutura, que demanda materiais carbono-intensivos como cimento e aço⁷. Somam-se a isso a degradação ambiental direta causada pelas guerras e o imensurável custo social e vital.
A escalada armamentista atua como catalisador do aquecimento global e vetor de fissuras sociais, distanciando a economia da saudabilidade e da regeneração. Para os negócios, as implicações são imediatas: ruptura das cadeias de valor, instabilidade estrutural e a incapacidade de planejar o longo prazo em um mundo colapsado sob o peso do conflito.
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"Não é sinal de saúde estar bem adaptado a uma sociedade doente."
– Jiddu Krishnamurti
Diante da magnitude e complexidade das policrises, a reação natural é a paralisia. As pessoas, confrontadas com a movimentação de superpotências e trilhões de dólares em armamentos, tendem a sentir-se irrelevantes. No entanto, é justamente aqui que a inovação real começa: longe dos noticiários e salas de guerra, mas na consciência individual.
A frase de Jiddu Krishnamurti ⁸ nos lembra que normalizar o conflito e a exploração é, em si, a patologia a ser curada. Como exploramos em nossa análise sobre Altruísmo⁹, a liderança contemporânea exige um movimento de dentro para fora, vindo de movimentos descentralizados e de base (grassroots), conforme evidencia Satish Kumar¹⁰.
A transformação sistêmica que buscamos não virá necessariamente de grandes acordos e decretos globais, mas da soma de transformações individuais que alteram a qualidade das relações e das decisões em nossos microambientes. Ao adotarmos a postura de "fazer até onde a mão alcança"¹¹, recuperamos a agência sobre o futuro. O autodesenvolvimento é a condição essencial para atuar no mundo com lucidez e sabedoria, e está longe de ser uma fuga mística da realidade ou um conceito individualista. É a partir dessa base de consciência renovada que podemos implementar, em nossos negócios e projetos, novas estruturas de operação.
As 6 raízes da inovação como resposta estratégica
Se o velho mundo dobra a aposta nas guerras e na polarização, nossa resposta estratégica deve ser a nutrição de sistemas de prosperidade. No Innovation Roots, mapeamos seis dimensões fundamentais (raízes da inovação)¹² onde a transição deve ocorrer para garantir não apenas a sobrevivência, mas a evolução e perpetuação dos negócios.
1. Do Crescimento à Prosperidade
A obsessão pelo crescimento infinito é o motor das guerras por recursos. A resposta inteligente consiste na transição para a Prosperidade, onde o sucesso é medido pela saúde do ecossistema e pela distribuição de valor. Negócios que adotam essa postura qualitativa constroem resiliência operacional e econômica ao reduzir a dependência de cadeias extrativistas danosas.
2. Da Exploração à Regeneração
Em um mundo de recursos finitos e disputados, a Regeneração é uma estratégia de hedge. Migrar de modelos lineares para circulares e regenerativos aumenta a imunidade contra choques no sistema e eleva seu potencial de valor.
3. Do Lucro ao Significado
Lucros trimestrais não garantem lealdade em tempos de crise. O Significado sim. Organizações guiadas por propósito e impacto positivo retêm talentos e engajam suas comunidades de forma profunda, criando um capital de confiança que o dinheiro não compra e que a instabilidade geopolítica não destrói.
4. Do Ensino à Aprendizagem
Em um contexto volátil, o conhecimento estático torna-se obsoleto rapidamente. A transição para uma cultura de Aprendizagem contínua e adaptativa permite que as organizações naveguem pela incerteza com agilidade, transformando a "força de trabalho" em uma força de inovação constante.
5. Da Tecnocracia à Empatia
Enquanto a tecnologia militar desumaniza, a tecnologia social deve reconectar. A Empatia aplicada ao design de produtos e serviços e à gestão de equipes é o antídoto contra a falta de ética. Em uma era de inteligência artificial e ciberguerras, a capacidade humana de colaborar e cuidar será um diferencial insubstituível.
6. Da Razão à Consciência
Por fim, superamos o racionalismo frio que justifica a Realpolitik por meio da expansão da Consciência. Adotar uma visão sistêmica e biocêntrica nos permite tomar decisões que consideram o longo prazo e a interdependência da vida, evitando os erros de julgamento que conduzem ao conflito e à destruição.
Nutrindo a esperança em ação
O contexto de 2026 e além exige sobriedade. No entanto, como nos lembra a ecofilósofa Joanna Macy¹³, a "Esperança Ativa" não é aguardar passivamente que o cenário melhore; é a prática de tornar-se a resposta através da ação presente.
Cabe às lideranças, em tempos de transição, recusarem a lógica da brutalidade, da escassez e do medo. O ato mais subversivo e inteligente hoje é demonstrar, por meio de negócios viáveis e robustos, que a regeneração é economicamente superior à destruição. Enquanto o velho paradigma investe em muros, nós investiremos em raízes. Afinal, são elas que sustentam a floresta quando a tempestade passa.
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Paulo Martinez é empreendedor, comunicador, tecnólogo e designer de sistemas regenerativos com 25 anos de carreira. É co-fundador e sócio do Grupo Ginga (ginga.group), co-fundador do Distrito (distrito.me), além de co-iniciador e publisher das comunidades intencionais GIRA (gira.xyz) e Innovation Roots (innovation-roots.com). Paulo também é membro do conselho e professor titular do IMGP (mestregp.com.br).
Referências citadas:
Realpolitik: Ludwig August von Rochau (1853). Grundsätze der Realpolitik. Obra seminal que cunhou o termo e definiu a política baseada em poder e interesses concretos, acima de princípios morais ou ideais. Designa a lógica em que decisões de Estado priorizam vantagem estratégica, controle territorial e sobrevivência do regime, mesmo que isso contradiga valores democráticos, direitos humanos ou acordos multilaterais;
Sharp increase in conflicts and wars • UCDP & ACLED (2025);
Conceito de Policrise • Adam Tooze;
Relatório “O Verdadeiro custo da Paz” • Organização das Nações Unidas (2025);
Relatório “Militarismo e Crise Ambiental” • Centro de Estudos pela Paz (2021);
Relatório “Estimating the Military’s Global Greenhouse Gas” • Scientists for Global Responsibility (2024)
Série de Livros “Comentários Sobre o Viver” • Jiddu Krishnamurti
Artigo “Altruismo: A característica mais importante da liderança contemporânea” • Paulo Martinez, Innovation Roots (2024)
Artigo “Economia e Ecologia: o reencontro de duas irmãs (com Satish Kumar)” • Paulo Martinez, Innovation Roots (2025)
Artigo “Regerenação: A inovação que não se ensina nas escolas de negócios (Com Lara Freitas e Marina Dain” • Paulo Martinez, Innovation Roots (2025)
Artigo “As 6 raízes da inovação para o nosso tempo” • Paulo Martinez, Innovation Roots (2024)
Joanna Macy: Ph.D, autora e professora, é uma estudiosa de budismo, pensamento sistêmico e ecologia profunda. Uma voz respeitada em movimentos por paz, justiça e ecologia, co-fundadora do movimento Trabalho que Reconecta (TQR);